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Tese de Guerdjieff

Tarcísio Barbosa

 

George Ivanovitch Gurdjieff, ou simplesmente Gurdjieff como é mundialmente conhecido, nasceu entre 1866 e 1870 em Alexandrópolis,na província de Kars, na Rússia. E faleceu em Paris em 1949.  Escritor, filósofo, pensador, deixou-nos belos ensinamentos que perdurarão por todos os tempos.  Sua obra-prima é Beelzebu’s Tales to His Grandson – Contos de Belzebu a seu Neto. Entre seus escritos estabeleceu 20 regras do bem-viver. Dizem os estudiosos  que se a gente seguir pelo menos 10 destas regras, já teremos uma vida de plena felicidade. Papo-cabeça!

Mas vamos às tais regras:

1.Faça pausas de dez minutos a cada duas horas de trabalho, no máximo. Repita essas pausas na vida diária e pense em você, analisando suas atitudes.

2. Aprenda a dizer não sem se sentir culpado ou achar que magoou. Querer agradar a todos é um desgaste enorme.

3. Planeje seu dia, sim, mas deixe sempre um bom espaço para o improviso, consciente de que nem tudo depende de você.

4. Concentre-se em apenas uma tarefa de cada vez. Por mais ágeis que sejam os seus quadros mentais, você se exaure.

5. Esqueça, de uma vez por todas, que você é imprescindível. No trabalho, em casa, no grupo habitual, por mais que isso lhe desagrade, tudo anda sem sua atuação, a não ser você mesmo.

6. Abra mão de ser o responsável pelo prazer de todos.

7. Peça ajuda sempre que necessário, tendo o bom senso de pedir às pessoas certas.

8. Diferencie problemas reais de problemas imaginários e elimine-os, porque são pura perda de tempo e ocupam um espaço mental precioso para coisas mais importantes.

9. Tente descobrir o prazer de fatos cotidianos como dormir, comer e tomar banho, sem também achar que é o máximo a se conseguir na vida.

10. Evite se envolver na ansiedade e tensão alheias. Espere um pouco e depois retome o diálogo, a ação.

11. Família não é você, está junto de você, compõe o seu mundo, mas não é a sua própria identidade.

12. Entenda que princípios e convicções fechadas podem ser um grande peso, a trava do movimento e da busca.

13. É preciso ter sempre alguém em que se possa confiar e falar abertamente ao menos num raio de cem quilômetros. Não adianta estar mais longe.

14. Saiba a hora certa de sair de cena, de retirar-se do palco, de deixar a roda. Nunca perca o sentido da importância sutil de uma saída discreta.

15. Não queira saber se falaram mal de você e nem se atormente com esse lixo mental: escute o que falaram bem, com reserva analítica, sem qualquer convencimento.

16. Competir no fazer, no trabalho, na vida a dois, é ótimo... para quem quer ficar esgotado e perder o melhor.

17. A rigidez é boa na pedra, não no ser humano. A ele cabe firmeza.

18. Uma hora de intenso prazer substitui com folga três horas de sono perdido. O prazer recompõe mais que o sono. Logo, não perca uma oportunidade de divertir-se.

19. Não abandone suas três grandes e inabaláveis amigas: a intuição, a inocência e a fé.

20. Entenda, de uma vez por todas, definitiva e conclusivamente: você é o que fizer de si mesmo.

 
A Inserção da Educação Superior na Organização Mundial do Comércio (OMC)

Carlos Alberto Serra Negra *

Elizabete Marinho Serra Negra *

 

Globalização não é um processo histórico novo. Não teve início, mas teve seu ápice no processo das grandes navegações do século XV. Historicamente, entretanto, sabemos que o que está por trás das grandes navegações, não foi o benefício aos países pobres, mas a consolidação das relações de poder e extração de riquezas dos países conquistados.

Os Fenícios, comercialmente, já se utilizavam da exploração de mercados além mar. Já no primeiro século a.C. os Helênicos espalharam-se pelo mundo. No Império Romano, a política adotada pelo Imperador Teodósio foi expansionista, com a finalidade ampliar os seus domínios, sua influência e seu comércio. Na época da expansão marítima e das colonizações, o que hoje é conhecido como o mercantilismo, o processo expansionista também se fez presente, com a Espanha, Inglaterra e Portugal, que tinham objetivos nitidamente comerciais e econômicos, além das cruzadas, que aparentemente tinham motivos religiosos, mas que na verdade contribuíram para a expansão do comércio e da exploração econômica.

Dessa forma, a mercantilização é uma função inerente a atividade humana que começou nos primórdios das civilizações com o escambo, e com a mudança de paradigmas, a criação do dinheiro como unidade de valor, passou a ser um processo de compra e venda. No conceito atual do mundo moderno o termo significa que tudo tem seu preço e está a venda.

Atualmente, o processo de globalização caracteriza-se: pelo avanço tecnológico; pela abertura dos mercados; pela implantação e consolidação da democracia em países dominados por um regime forte; pela redução do poder do Estado na economia, um Estado mínimo; pela livre circulação de produtos e informações; pela internacionalização do capital não-produtivo (financeiro); pelo aumento do poder das empresas transnacionais; pela consolidação de novos blocos econômicos como: ALADI, NAFTA, APEC, PACTO ANDINO, MERCUSUL e ALCA.

Consequentemente, desses fenômenos decorrem o surgimento de novos paradigmas: competitividade, tecnologia e capacidade técnica de trabalho; surgimento de novos produtos e expansão de mercado; surgimento de novos pólos de poder econômico; aparecimento de mega empresas passam a fazer às vezes dos Estados Multinacionais; aumento da pobreza dos países subdesenvolvidos;

Para reger essa economia global a Organização Mundial do Comércio (OMC) foi constituída em janeiro de 1995 pelos Estados-Membros do Acordo Geral das Tarifas e Comércio (GATT) que, por sua vez, teve origem em 1947. A Função básica da OMC é a organização de normas comuns e internacionais pelos Estados-Membros que gere e os representam em base legal e institucional num sistema multilateral. Tem de modo mais simples, o objetivo de regular as trocas internacionais e promover o livre comércio.

Do ponto de vista institucional e de poder a OMC é mais que um conjunto de acordos comerciais. É um organismo de poder supranacional. Pois ela pode: elaborar normas; julgar países no descumprimento de acordos; determinar sanções aos países membros. Percebe-se que a OMC assume um poder muito grande sobre as nações do mundo inteiro e que, em sua essência, acumula as funções executivas, legislativas e judiciárias do sistema de comércio internacional aos interesses da maioria dos países membros.

Em se tratando de educação, em todos os países do mundo, as atividades de ensino sob qualquer modalidade movimentam muito dinheiro. O Setor recebe investimentos de 5% do Produto Interno Bruto – PIB em países desenvolvidos e 4% em nações em desenvolvimento. Pouco se sabe ainda sobre as conseqüências das discussões na qualidade, no acesso e no equilíbrio do comércio dos serviços de educação, mas sabe, sobretudo, que é uma fatia de mercado que cresce em todos os países.

A idéia de que os serviços de ensino sejam comercializados livremente, facilitando operações como a atuação de grupos educacionais estrangeiros e a aprovação de cursos a distância podem alterar sensivelmente as leis nacionais. As mudanças legais atingiriam diversos níveis, desde treinamento profissional até os cursos de pós-graduação.

Os donos mundiais do negócio da educação precisam de mercados novos para expansão, o que torna os países em desenvolvimento um atrativo. Para muitos a indústria do conhecimento, a educação transformada em negócio, é uma tendência mundial. Isso pode ser bom ou ruim. A educação é encarada como um produto qualquer. Cabe ao usuário avaliar o que está comprando. Esta tem sido a tônica nacional e internacional daqueles que defendem a educação como negócio.

A OMC reconhece quatro formas de oferta de serviço educacional como livre comércio: 1) fornecimento além de fronteira, que prevê a atuação das instituições de ensino em outros países que não os de origem; 2) ensino no exterior, para alunos estrangeiros, que aderem a programas de intercâmbio; 3) estabelecimento de uma presença comercial, que implica na abertura de um campus no exterior ou na fusão com outras escolas; 4) oferta de especialistas para cursos especiais, palestras ou equipes de pesquisas.

Segundo a OMC os serviços de educação podem ser divididos em três principais categorias: os cursos presenciais no país, os cursos a distância e os cursos presenciais em outro país por meio de programas interinstitucionais.

Contudo, tratar a educação como ‘negócio’ tem repercussões mais profundas.  No caso do ensino superior, objeto alvo da OMC, existe um quadro teórico e conceitual dado pela Conferência de Paris em 1998, de que a educação seja vista como um negócio comercial. Foi levando em consideração que a internacionalização da educação superior é, em primeiro lugar e antes de tudo, o reflexo do caráter mundial da aprendizagem e da pesquisa e que a cooperação neste campo, essencial nos dias atuais, deve ser baseada numa associação autêntica e na sua confiança mutua e solidária.

Outra discussão que se verifica é que caracterizar a educação como serviço ou mercadoria traz á tona a discussão do papel social do ensino. Provavelmente a educação puramente comercial atenderá as exigências de mercado e não preparará as gerações para as dificuldades e as demandas de crescimento dos países.

Entretanto, na reunião realizada na França, não ficou decidido se educação é um ‘bem’ ou ‘serviço’ público e que envolve dois aspectos que é o governo mantendo o monopólio do poder sobre a educação, onde as empresas privadas têm apenas uma concessão para atuar na área. O outro aspecto é a discussão de qual é o ‘produto’ da educação: o aluno? a comunidade? a pesquisa? ou o conhecimento? Até hoje não está bem resolvido a questão do produto da educação.

O Brasil vem adotando uma posição defensiva nas discussões sobre os serviços de educação na OMC e ficará atento para que os resultados não interfiram nas leis do país. Para o Ministério da Educação (MEC) não há restrições a estrangeiros implementarem instituições de ensino, associar-se a entidades nacionais ou oferecerem cursos de longa distância. No entanto, todos os cursos devem receber permissão do órgão para funcionar, obedecer à LDB e ser avaliados pelos sistemas existentes no país, como o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES).

Na concepção e diretrizes do programa do atual governo brasileiro a valorização da cultura nacional é um elemento fundamental no resgate da identidade do país. Em relação às universidades públicas e privadas serão valorizadas e integradas ao processo de desenvolvimento nacional, considerando seu papel na recuperação da capacidade de produção endógena de tecnologia e seu papel crítico diante da sociedade. Vale bem a frase de uma campanha do sindicato dos professores: Educação não é mercadoria!

* Professores e Pesquisadores do UnilesteMG. Membros da Academia Mineira de Ciências Contábeis. Doutorandos em Administração pela Universidade Nacional de Rosário – Argentina.

 
Dá-me a tua mão...

Tarcísio Barbosa

 

Dá-me tua mão. Vem comigo. Deixa que eu te leve para os meus sonhos de amor e paixão.  Vem devagarinho. Não tenho pressa. Falarei para ti doces palavras no mesmo ritmo da tua respiração. Desvendarei para ti meus segredos há tanto tempo guardados e te direi mais uma vez o quanto eu te amo.

Dá-me tua mão. Vem para os meus braços que vou envolver-te carinhosamente. Sentirás nos lábios o doce sabor de um beijo meu. Dado de paixão. Fala-me dos teus segredos, dos teus fantasmas. Das tuas alegrias e tristezas. Sou todo ouvidos. Escuta meu silêncio que valerá por mais que mil palavras.

Dá-me tua mão. Solta-te das amarras que te prendem à realidade da vida. Vem viver um sonho de amor.  De paixão. Que durará enquanto a chama da paixão continuar acesa. Que será eterna enquanto durar.

Dá-me tua mão. Vem para o meu mundo, para a realidade dos meus sonhos. Para eu continuar sonhando. Vamos passear pelos campos verdejantes da nossa terra. Nas belas cachoeiras tomaremos banho juntos. Beberemos das fontes das águas mais puras num cálice dos lírios e descansaremos à sombra dos ipês floridos, sentados na grama cheia de flores douradas que caem destas árvores tão belas. Ouviremos o cantar dos pássaros nas árvores em busca do amor.

Dá-me tua mão. Vamos passear pela praia e olhar o horizonte longínquo, ver o mar beijando o céu. Aproveitaremos o ritmo das ondas na praia e dançaremos bem abraçadinhos.  E mais uma vez sonharemos com nosso futuro. De amor. De felicidade. Vamos navegar em um barquinho branco sempre em águas calmas como deverá ser nosso amor. Sem atropelos, sem pressa.

Dá-me tua mão. Vamos ver juntos as estrelas e prestar atenção às cadentes que são lágrimas de amor dos apaixonados lá do céu. Entre eles Romeu e Julieta. Simão Botelho e Tereza de Albuquerque, do livro Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. Beatriz e Dante Alighieri. Marília e Dirceu, um amor dos tempos de Inconfidência Mineira. Dom Pedro e a Marquesa de Santos.

Dá-me tua mão. Serei teu escravo e teu senhor. Vou seguir-te por todas as veredas da terra. Mas tens que jurar  mais uma vez sob as estrelas, como eu já fiz tantas vezes, e num terno beijo, que me amarás durante toda a nossa jornada. Que será bela a teu lado.

Dá-me tua mão... e vem...vem simplesmente me amar!

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Adultos: já pra brincadeira!

Para conservar a curiosidade, a imaginação e a transgressão,  é importante brincar sempre

 

Por Eugenio Mussak

 

Alguns mitos precisam ser derrubados. Um deles é que a infância termina quando ficamos grandes. Quem pensa assim considera que infância é apenas uma fase da vida, um ciclo biológico durante o qual o corpo cresce aceleradamente e importantes mudanças fisiológicas acontecem. Mas há quem ache que infância é mais que isso, é um estado de espírito, cheio de qualidades que promovem o desenvolvimento da alma. Ao pensar dessa forma, aceitam que ela não termina quando começa a idade adulta; ao contrário, persiste por toda a vida. Estou nesse grupo.

Há pelo menos três qualidades na criança, necessárias para permitir sua interação com mundo: a curiosidade, a imaginação e a transgressão criativa. A primeira serve para que ela acelere o processo de percepção e entendimento do mundo; a segunda, para que ela crie, em sua cabecinha, o mundo que ela deseja, sem as mazelas que ela vai percebendo que existem; e a terceira, para que ela ouse modificá-lo para dar lugar a esse mundo ideal.

Sem essas três características humanas, que nascem conosco, provavelmente ainda estaríamos na Idade da Pedra. Foram elas que promoveram a evolução, o desenvolvimento, todo o conjunto de coisas que inventamos ao longo de todos esses séculos. Pois bem, essas qualidades são infantis, primárias, precoces, mas podem perdurar pela vida, conservando, no adulto, um jeito de criança.

O problema é que nós teimamos em acabar com essas qualidades quando crescemos, porque alguém – provavelmente um grande chato – disse que elas não combinam com ser sério e responsável. Ora, o que seria dos inventores, dos artistas, dos poetas, dos cientistas e dos grandes promotores de mudanças se eles não tivessem conservado em si a curiosidade, a imaginação e a transgressão? Aliás, foi Einstein quem disse que a imaginação é mais importante que o conhecimento. E depois foi tirar aquela foto de língua para fora, brincando com o fotógrafo e com o mundo.

Então, o adulto pode continuar a brincar sem parecer ridículo? Estou escrevendo este artigo nos Estados Unidos, aonde vim para um curto período de estudo e, claro, diversão. Aqui eles têm um ditado curioso a esse respeito. Dizem: a diferença entre homens e meninos é o preço dos brinquedos.  Eu sei, trata-se de uma frase com forte apelo consumista e de gosto duvidoso, mas mostra como funciona a cabeça desse povo, que desenvolveu a maior indústria de entretenimento do mundo, além de dar uma pista da essência do ser humano.

Por acaso, uma das pessoas a quem vim conhecer foi o Dr. Elkhonon Goldberg. Trata-se de um neurocientista de origem russa, pesquisador na Universidade de Nova York e autor de vários livros, entre eles O Paradoxo da Sabedoria, em que ele mostra que a mente pode manter-se lúcida e ativa apesar do envelhecimento do cérebro. Uma das condições, ele insiste, é manter-se capaz de brincar, especialmente consigo mesmo.

Quando cheguei a seu gabinete, o Dr. Goldberg abriu a porta e foi logo me perguntando se eu me incomodava com a presença de animais. Eu respondi que não, que gostava muito, que tinha duas cachorras e uma gata em casa. Ele então me fez entrar e eu pude ver em cima do sofá um imenso mastim napolitano que atendia pelo nome de Britt. Quer dizer, atendia em termos, porque demorou a ser convencido a ceder o sofá para a visita. Dr. Goldberg é uma pessoa bem-humorada. Brinca o tempo todo, de um jeito que, para os mais sisudos, talvez pareça não combinar com um cientista de renome mundial. Mas ele é assim, e em minutos eu já estava totalmente à vontade.

Ao longo da conversa, entramos no assunto da importância dos estímulos ambientais para o desenvolvimento do cérebro, e foi quando ele conseguiu me surpreender ainda mais. Esticou o braço e pegou da estante um livro em russo, escrito no começo do século passado, em que o autor já se referia a esse tema. Era um original de Lev Vigotsky, um dos maiores pensadores em educação que o mundo já produziu. E, para encanto meu, havia nele uma dedicatória de sua viúva, que o presenteou diretamente ao nosso doutor. Vigotsky diz que o processo de brincar não torna o brinquedo um mero utensílio de distração, mas um gerador de situações imaginárias. Ele aponta em seu livro A Formação Social da Mente que toda brincadeira, por mais livre e espontânea que pareça, é regida por regras “ocultas”. A principal delas é que a criança quando brinca está sendo totalmente espontânea, pois está brincando de ser ela própria, ou seja, ela brinca de ser criança. Mesmo que, em sua brincadeira, ela esteja imitando um adulto – um piloto ou um bombeiro, por exemplo –, ela está brincando de criança que imita o adulto.

Assim, o psicólogo russo concluiu que a brincadeira é o caminho fundamental para o desenvolvimento da mente humana, pois se trata de uma idealização da realidade, a partir da qual a criança começa a sentir-se parte do mundo, exercendo, inclusive, o poder de modificá-lo. Manter-se capaz de brincar pela vida afora é manter a capacidade de interagir com a realidade da melhor forma, com humor, imaginação e alegria.

Brincar ajuda a aprender? Fragmentar a diversão como objeto de estudo é algo tão intrincado quanto completar um quebra-cabeça com mais de 1000 peças, mas também não é algo tão difícil quanto ganhar superpoderes para salvar o mundo do mal. A primeira peça é a que mostra que é só na alegria que a criança se coloca inteira. É fácil deduzir que, se ela considerar o ato de aprender uma brincadeira, isso aumentará em várias vezes sua capacidade de se concentrar. Portanto, brincar ajuda a aprender.

Quem explica isso é a biologia. O biólogo evolucionista Marc Bekoff, da Universidade do Colorado, descobriu, ao comparar o cérebro humano com o de outros mamíferos, que há, entre eles, muitas semelhanças. Uma delas é a produção do neurotransmissor dopamina, responsável pela sensação de alegria e que também ajuda na construção de novas possibilidades. Em outras palavras, estimula o aprendizado.

“Brincar leva a uma flexibilidade mental e a um vocabulário comportamental mais amplo que auxilia o animal a obter sucesso no que importa: dominância do grupo, seleção de companheiros, prevenção de captura e busca por alimento”, disse Bekoff. Dessa forma, ser humano e bicho funcionam de forma similar: ambos criam crescentes conexões nervosas ao longo da brincadeira, e estas ajudam a formar uma cabeça mais ágil e aberta ao novo.

E há mais gente que, sem querer querendo, está metendo sua colher de pau nesse angu. Gilles Brougèr, por exemplo, é um especialista em jogos e brinquedos. Ele coloca uma pitada de semiótica na discussão ao afirmar que as brincadeiras têm significado antropológico, e que não são simples passatempos. “O brinquedo é um dos reveladores de nossa cultura”, diz ele. E insiste que, ao brincar, estamos revelando o jeito de ser de nosso grupo humano.

Então o brinquedo não está à sombra da sociedade, ele revela a identidade social da criança e, como consequência, do adulto que ela virá a ser. O brinquedo é o pensamento vigente em forma de objetos de plástico. Como se vê, não dá para parar de brincar; a humanidade perderia uma ótima oportunidade de entender a si mesma.

E em casa? É saudável um casal manter as brincadeiras entre si e com os filhos? E como. Desde a Grécia, os antigos – e sapientíssimos – habitantes já usavam o ato lúdico para criar e curar. Arquimedes já citava que “brincar é a condição fundamental para ser sério”; os atenienses concediam peças musicais, teatros e espetáculos de comédia aos doentes; no século 16, os médicos já diagnosticavam o entretenimento como o melhor medicamento para todos os males: “A alegria dilata e aquece o organismo, já a tristeza contrai e esfria o corpo”.

Enfim, se você, adulto ciente e responsável, ainda não desatou a brincar, é porque ainda lhe falta maturidade. Deixar-se levar pela imaginação, não tenha medo de ir contra a maré da “adultice”, de dar risada de si mesmo, abraçar a espontaneidade, correr, gritar, pular, usar o siso somente quando necessário e abusar – e muito – do riso.

Com relação aos baixinhos em casa, não tente transformá-los em mini adultos. Cursar novas línguas pode fazer bem à mente. Praticar esportes pode estimular o corpo. Aprender a tocar violoncelo pode lavar a alma. Mas desde quando rechear o dia do seu filho com tantas atividades é sinônimo de qualidade? Celular, computador, agenda cheia. Quando ele tem tempo para brincar sem estar preso à grade de horário?

É difícil conciliar estudo e diversão em tempos em que escolas priorizam formar cidadãos mais “competentes para o mercado de trabalho” que “aptos para a vida”. Contudo, é bom ressaltar que aprender e brincar se complementam. Divertir-se estimula a criatividade e abre novos caminhos ao aprendizado.

Não tenha pressa em tornar seu pimpolho um pequeno sisudo. Ele irá adquirir competências de gente grande de um jeito ou de outro, cada coisa a seu tempo. E deixe que ele faça você se lembrar de sua infância, de um tempo passado que pode continuar ainda hoje – se você quiser –, assim você aprenderá que a infância não precisa morrer nunca.

*Fonte: Revista Vida Simples

 
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