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O Suicida e o ComunicólogoO Suicida e o Comunicólogo

Tarcísio Barbosa

Toda cidade tem um comunicólogo. Um tipo de showman que se intromete em tudo. Sempre querendo aparecer. Subindo em caixote para fazer discurso. Alguns sobem até em uma gilete quando não tem um caixote por perto. Este é o caso de um comunicólogo que se deu mal.

Toniquinho estava lá pelos seus trinta e poucos anos e já na terceira companheira. Durante toda sua vida sentimental fora, entre os amigos de língua grande, o rei do chifre. Vivia levando chifre desde a adolescência: chifrinho, chifre e chifrão. Foi-se aguentando pois ainda não levara chifre da patroa: esposa de papel passado como quisera sua mãe.  Ainda era o que ele pensava. Mas o fato já vinha ocorrendo fazia algum tempo.

Mudara-se para perto de sua casa um jovem bonitão, frequentador de academia. Todo saradão. E uma conversa pra lá de mole. A quem a mulher do Toniquinho não resistira.

Um dia Toniquinho ficara sabendo e se desesperara. Chifre das namoradinhas vá lá... mas da patroa já era demais! Por mal dos pecados, fora também despedido do emprego. Que ele achava seria para a vida inteira. Ele vivia na década de sessenta, ou um pouco antes.

Chifrado e quebrado, Toniquinho tomou uma decisão trágica: iria se matar. Não iria suportar tanta vergonha, tanta desgraça. Para tanto, escolheu o prédio mais alto de sua cidade. E lá na cobertura daquele prédio comercial ameaçou se jogar. Chegou o corpo de bombeiros que começou a escalar o prédio, porquanto Toninho trancara a porta que dava para a cobertura. Começou a chegar, então, a urubuzada de sempre: jornais, rádios, fotógrafos e televisão.  E o povo. Todos ali para ver a tragédia. Afinal, não era todo dia que alguém resolvia suicidar-se numa cidade pequena.

Debaixo do prédio foi-se formando uma multidão. Era hora de todo mundo largar o serviço para o happy-hour. Happy hour coisa nenhuma. O pessoal tava seco era mesmo numa cachacinha  antes do jantar.

Não se sabe como, Tonhão, o maior comunicólogo daquela cidade chegou à cobertura, quando o Tonico já se pusera em cima da cornija da janela.

- Faz isso não, Tonico! A vida é bela! Alguém vai arranjar outro emprego pra você. E outra mulher, você mesmo arranja. Tem muitas por aí!

- É, mas eu gosto mesmo é da Edelweiss. Sempre foi minha paixão. Dei a ela todo o meu amor e ela me pôs um chifrão sem tamanho.

- Pense nos seus amigos! Na tristeza que você trará a eles.

- Alguns dos meus amigos também já me chifraram antes, ponderou Tonico.

Enquanto isto, a turma lá em baixo no prédio crescia. Aí, passou por lá um bêbado. Bêbado, não. Trêbado.

- Pula! Pula! Pula!, começou a gritar o bêbado.  Quase de imediato, toda a turma ali – os urubulinos de plantão – fez coro ao bêbado. Aquilo ali já estava virando um circo.

- Posso sentar-me aí perto de você, perguntou o Tonhão ao Tonico que estava sentado na cornija da janela.

- Pode sim, Tonhão! Mas não adianta, eu vou pular. Eu já me decidi.

- Segura minha mão, Tonico!  Passarei para você uma energia positiva. E você desistirá deste ato insano, falou o comunicólogo Tonhão.

Tonico segurou a mão de Tonhão, e ficaram ambos em silêncio, meditando. Foi aí que os bombeiros conseguiram chegar à janela do prédio onde Tonico e Tonhão estavam.

Tonico, no desespero, em sua decisão insana, pulou. E, segurando a mão do comunicólogo Tonhão, levou-o consigo. De lambujem.

E foi assim que aquela cidadezinha se livrou de um comunicólogo chatérrimo!

 
Afinal, o que é sustentabilidade?

*Por Luiz Carlos Cabrera

 

Sustentabilidade é a palavra que mais se ouve e se lê por aí - na administração, na economia, na engenharia ou no Direito. Mas, afinal, o que significa sustentabilidade? Como bom mentor, vou tentar explicar de forma simples o conceito que já faz parte da vida moderna. Em primeiro lugar, trata-se de um conceito sistêmico, ou seja, ele correlaciona e integra de forma organizada os aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade. A palavra-chave é continuidade – como essas vertentes podem se manter em equilíbrio ao longo do tempo.

Quem primeiro usou o termo foi a norueguesa Gro Brundtland, ex-primeira ministra de seu país. Em 1987, como presidente de uma comissão da Organização das Nações Unidas, Gro publicou um livreto chamado Our Comom Future, que relacionava meio ambiente com progresso. Nele, escreveu-se pela primeira vez o conceito: “Desenvolvimento sustentável significa suprir as necessidades do presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprirem as próprias necessidades”. Note que interessante: a proposta não era só salvar a Terra cuidando da ecologia, mas suprir todas as necessidades de gerações sem esgotar o planeta. “Nem de longe se está pedindo a interrupção do crescimento econômico”, frisou Gro. “O que se reconhece é que os problemas de pobreza e subdesenvolvimento só poderão ser resolvido se tivermos um, a nova era de crescimento sustentável, na qual os países do sul global desempenhem um papel significativo e sejam recompensados por isso com os benefícios equivalentes.”

Parece que Gro Brundtland adivinhava a crise recente das economias do norte e já salientava o papel dos países emergente, como o Brasil, China, e Índia. Para você, vale lembrar que a sustentabilidade se aplica a qualquer empreendimento  humano, de um país a uma família. Toda atividade que envolve e aglutina pessoas tem uma regra clara: para ser sustentável, precisa ser economicamente viável, socialmente justa, culturalmente  aceita e ecologicamente correta. O desfio é enorme, envolve várias gerações e, por isso, você precisa estar ligado no tema.

 

* Luiz Carlos Cabrera é professor da Eaesp-FGV, diretor da PMV consultores e membro da Amrop Hever Group

 
A Tranquilidade das Ovelhas

* Rubem Alves

 

A noite estava escura, céu sem estrelas.

De vez em quando ouvia-se o uivo de um lobo bem longe, misturado com o barulho do vento.

As crianças reunidas na tenda do Mestre Benjamin estavam com medo.

Mestre Benjamim sentiu o medo nos seus olhos. Foi então que uma delas perguntou:

- Mestre Benjamim, há um jeito de não ter medo? Medo é tão ruim!

Mestre Benjamim respondeu:

- Há sim... E ficou quieto.

Veio então a outra pergunta:

- E qual é esse jeito?

- É muito fácil. É só pensar como as ovelhas pensam...

- Mas como é que vou saber o que as ovelhas estão pensando?

Mestre Benjamim respondeu: - Quando durante a noite, as ovelhas estão deitadas na pastagem, os lobos estão à espreita. E eles uivam. As ovelhas têm medo.

Mas aí, misturado ao uivo dos lobos, elas ouvem a música mansa de uma flauta. É o pastor que cuida delas e não dorme nunca. Ouvindo a música da flauta elas pensam: Há um pastor que me protege. Ele me leva aos lugares de grama verde. E sabe onde estão as fontes de águas límpidas.

Uma brisa fresca refresca a minha alma.

Durante o dia ele me pega no colo e me conduz por trilhas amenas. Mesmo quando tenho de passar pelo vale escuro da morte eu não tenho medo. A sua mão e o seu cajado me tranqüilizam. Enquanto os lobos uivam, ele me dá o que comer. Passa óleo perfumado na minha cabeça para curar minhas feridas. E me dá água fresca para sarar o meu cansaço.

Com ele não terei medo, eternamente... (Salmo 23, paráfrase)

Mestre Benjamim parou de falar.

Os olhos de todas as crianças estavam nele. Foi então que uma delas levantou a mão e perguntou: - E os lobos? Eles vão embora? Eles morrem?

Os lobos continuam a uivar. E continuam a ser perigosos. O pastor não consegue espantar todos eles. E por vezes eles atacam e matam. Mas as ovelhas, ouvindo a música da flauta do pastor dormem sem medo, não porque não haja mais perigo, mas a despeito do perigo. Não há jeito de acabar com o perigo. Mas há um jeito de acabar com o medo. Coragem é isso: dormir sem medo a despeito do perigo...

As crianças voltaram para suas tendas e dormiram sem medo, pensando nos pensamentos das ovelhas. De vez em quando, lá fora, ouvia-se o uivo de um lobo faminto.

Desde então, tornou-se costume contar ovelhinhas para dormir.

 

* Rubem Alves, do livro “Perguntaram-me se acredito em Deus”, Editora Planeta, 2007

 
INVERNO NO CORAÇÃO

Prof. Tarcísio Barbosa

 

Inverno é a estação do frio que costuma nos trazer lembranças tristes de amores passados e mal-resolvidos. Ou seja, é o frio no coração. É o aperto da solidão. Mas pode ser também a esperança de dias melhores!

Foram os tempos há muito passados desde que você se foi. Foi aí que eu entendi que a estação mudara: inverno no tempo e no meu coração. A porta do seu coração se fechou para mim e eu me vi só. Seu amor por mim foi lançado ao léu, desvaneceu-se como um fantasma. Meu amor, minha paixão por você ficaram ao relento, ao sabor das tempestades e do frio inverno que tomou conta do meu coração.

Abrigado sozinho em meu apartamento, vou para o nosso leito, frio com sua ausência. E que muitas vezes foi palco de tantas noites de amor e paixão, há muito não é desfeito pelas nossas doces vigílias. Entre os lençóis brancos e macios, ainda sinto seu cheiro gostoso a inebriar meus sentidos. Levanto-me para um novo dia de trabalho, com o inverno no coração. Que antes era nossa estação de maior romantismo, do aconchego. Era nossa estação do amor! Apesar do frio, o amor aquecia nossos corações.

Por que você não retorna e dissipa essa neblina fria que envolve minha alma, tirando-me desta espera aflitiva, aquecendo minha alma tristonha, dando-me de novo a alegria do tempo em que estávamos juntos, me fazendo feliz outra vez?

Não tenho medo do inverno. Tenho medo é da solidão, pois a neve do tempo já se achega a minhas têmporas, me tornando mais emotivo. Estarei sempre à procura de um novo amor para tirar o inverno do meu coração.

Quem sabe na primavera, com o sol aquecendo as florestas e as campinas, ele também não aquece meu coração sob a forma de um novo amor?

Muitas paixões já se foram, mas eu sei que outras ainda virão!

 

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